"Ao começarem estas
coisas a suceder, exultai e erguei a vossa cabeça; porque a vossa redenção se
aproxima." (Lucas 21:28)
"Haverá um só cristão
cuja pulsação não se acelere ao prever os acontecimentos que se iniciam perante
nós? O Senhor vem. Ouvimos os passos de um Deus que Se aproxima."
(Ellen White, Review and Herald, 12 de novembro de 1914)
(Primeira página do Jornal de Notícias, 18 de janeiro de 2012)
(Primeira
página do Diário de Notícias, 18 de janeiro de 2012)
"O acordo que será
assinado hoje entre o Governo, os patrões e a UGT estabelece a eliminação
do descanso compensatório por trabalho suplementar. Ou seja, trabalhar a
um sábado passará a traduzir-se apenas num acréscimo de remuneração, que
não acumula com um dia de descanso.
A medida consta da versão final
do "Compromisso para o Crescimento, Competitividade e Emprego" e terá
"carácter imperativo". Isto é, os patrões deixarão de ter a
opção de escolher entre as duas formas de compensação.
Na prática, isto significa que
os empregados poderão ser chamados a trabalhar seis dias por semana, até um
máximo de 25 vezes no ano."
Releia este excerto do último parágrafo: "chamados a
trabalhar seis dias por semana". E para não deixar dúvidas,
o artigo refere qual será esse sexto dia...
Embora falemos do pequeno
âmbito do mercado de trabalho português, não deixa de ser, no mínimo, um ante-aviso
para o que aí virá...
Momentos importantes fazem parte da jornada de todo jovem quando ingressa
na idade adulta: a chegada à universidade, o começo da carreira, a compra do primeiro
apartamento, o casamento e – no caso de muitos cristãos hoje em dia – o
distanciamento da fé. Para cada vez mais rapazes e moças na faixa entre os 20 e
os 30 anos, tudo o que se aprendeu ao longo de anos e anos de escola dominical
infantil, atividades de grupos de adolescentes ou reuniões de oração da
mocidade simplesmente parece perder o sentido diante da realidade da vida
autônoma e suas múltiplas possibilidades. Motivos para tal esfriamento não
faltam: o sentimento de liberdade pessoal, o convite aos prazeres antes
proibidos, a ênfase exagerada na vida profissional e no próprio sucesso...
Longe da tutela dos pais crentes, jovens que um dia eram vistos na igreja como
promissores nas mãos de Deus vão, pouco a pouco, assumindo um estilo de vida
mundano. E logo já não são nem um pouco diferentes de seus amigos que jamais
estiveram num culto. Não há, dizem, uma razão específica. O que
se alega é um certo cansaço da vida religiosa ou a impressão de que a história
do Evangelho, afinal de contas, não é tão verdadeira assim. Todo crente conhece
pessoas nesta situação. E a quantidade de gente que deixa a igreja para trás
tem aumentado – só no Brasil, segundo o último Censo, já há cerca de 14% de
evangélicos confessos sem ligação formal com uma igreja. A tendência é mais
aguda entre os jovens adultos, e não apenas por aqui. Na última edição da
Pesquisa Americana de Identificação Religiosa, um fato chamou a atenção. A
porcentagem de americanos que responderam “sem religião” praticamente dobrou
nas últimas duas décadas, crescendo de 8,1% nos anos 90 para 15% em 2008. O
estudo também observou que assombrosos 73% deles vêm de famílias religiosas – e
quase dois terços foram descritos no estudo como “ex-convertidos”.
O resultado de outra pesquisa também foi expressivo. Em maio de 2009, no Fórum
de Religião e Vida Pública, os cientistas políticos Robert Putnam
e David Campbell apresentaram uma pesquisa descrevendo o fato de
que jovens estão abandonando a religião em “ritmo alarmante”, cinco a seis
vezes mais rapidamente do que anteriormente registrado. Fato é que a sociologia
já descobriu que a migração para longe da fé cristã, por parte de jovens antes
engajados na vida eclesiástica, é um fenômeno crescente. E uma resposta para
este fato requer primeiramente uma análise de tal êxodo e o questionamento
honesto das razões pelas quais ocorre.
ABANDONOO presidente do Barna Group, entidade cristã de pesquisas
sediada na Califórnia (EUA), David Kinnaman, revela que cerca de 65% de
todos os jovens de seu país afirmam ter feito um compromisso com Jesus Cristo
em algum momento de suas vidas. Kinnaman entrevistou milhares de jovens para a
elaboração de seu livro UnChristian. Segundo ele, a maior parte dos
‘não-cristãos’ da sociedade hoje é formada por gente que em algum momento freqüentou
igreja e serviu a Jesus. “Em outras palavras, eles são nossos antigos amigos,
adoradores de outrora”, acentua.
Grande parte dos pesquisadores avalia que este dramático número de abandonos
espirituais por gente na faixa dos vinte e poucos anos constitui, na verdade,
uma etapa no curso da vida de quem chegou à conclusão que vale mais a pena
dormir até tarde ou fazer outros tipos de programa aos domingos. O sociólogo Bradley
Wright salienta que a tendência da juventude ao abandono da fé é uma
característica do cristianismo contemporâneo. A questão do comprometimento
moral parece estar na base do processo. Donos do próprio nariz, não poucos
jovens de origem evangélica começa a mudar de hábitos, sendo mais abertos a
novas experiências e menos refratários àquilo que, durante anos e anos, ouviram
ser pecado.
Quando o rapaz ou a moça recém-saída da casa dos pais vai morar com o
companheiro, ou encontra na faculdade amigos que fazem convites para noitadas,
os conflitos entre a crença e o comportamento pessoal parecem ficar
inconciliáveis. Cansados de lidar com o que lhes resta de uma consciência de
culpa e relutantes em abandonar aquilo que têm como conquistas pessoais, eles
preferem abandonar o compromisso cristão. Para isso, podem usar como argumentos
o ceticismo intelectual ou a decepção com a igreja, mas estes são apenas
motivos superficiais para esconder a razão principal. A verdade é que a base de
crenças acaba sendo adaptada para corresponder às ações.
“Em alguns casos, o processo é gerado por uma decepção com a igreja, levando ao
esfriamento”, aponta o pastor Douglas Queiroz, da Igreja Plena de Icaraí, em
Niterói (RJ). Há dez anos, ele dedica seu ministério à juventude, aconselhando
não apenas novos convertidos como gente que nasceu na igreja, mas em algum
momento abandonou a fé. “Eles não se identificam mais com a igreja da qual
faziam parte”. Para Douglas, esse fenômeno pode ser atribuído, em parte, ao
momento em que o jovem vive.
Isso se dá pelo distanciamento que existe entre a
igreja e a sociedade. O jovem de hoje, detentor de muita informação, não aceita
esta relação ambígua, não suporta mais viver numa subcultura ou dentro de um
gueto com postura, linguajar e pensamentos distantes do cotidiano”,
comenta. Mas existem também, diz o pastor, situações em que não se trata
exatamente de um esfriamento espiritual. “A pessoa simplesmente descobre que
sua fé não existe, ou seja, nunca houve uma experiência individual. O jovem é
cristão simplesmente porque nasceu num lar de crentes e cresceu indo à igreja.”
“PRATOS ATRATIVOS”
A diversidade de situações torna difícil resumir tudo no velho chavão da
“rebeldia juvenil”. Aos 30 anos de idade, o ministro de adoração da igreja Casa
da Bênção em Jardim Paulista (PE), Juliandreson Pimentel, conhece de perto esta
realidade. Funcionário público e estudante de Direito, ele encontra tempo na
agenda para trabalhar com jovens e acha que o trabalho tímido de formação nas
igrejas está na raiz do esfriamento espiritual dos crentes nesta fase da vida.
“Com uma conexão maior fora do ambiente eclesiástico, muitos jovens acabam
cuidando mais de si mesmos, negligenciando o serviço de Deus”, comenta. Ao
mesmo tempo, existem fatores comuns. Muitos afastamentos foram precipitados,
como diz Douglas, por aquilo que aconteceu dentro da igreja, em oposição ao que
acontece fora dela.
Até mesmo os que adotaram um estilo de vida
materialista ou uma forma de espiritualidade vaga demais para ser definida como
cristã têm em comum, quase sempre, uma vivência de cristianismo superficial que
efetivamente os afastou de uma fé autêntica.
O sociólogo Christian Smith e seus colegas pesquisadores examinaram a vida
espiritual dos adolescentes americanos e perceberam que a maior parte deles
pratica uma religião que pode ser descrita como “deísmo moralista e
terapêutico”, e deixa Deus como o distante Criador que abençoa pessoas que são
“boas e justas”. Assim, o objetivo central dessa divindade é ajudar os crentes
a se tornarem felizes e a sentirem-se bem consigo mesmos. E como esses
adolescentes aprenderam sobre esta forma de fé? Naturalmente, porque ela é
ensinada de maneira explícita ou implícita em todas as fases da vida nas
igrejas. Ela está no ar respirado pelos frequentadores de igreja, que buscam
cultos amigáveis e pequenos grupos de pouco compromisso. Quando esta visão
ingênua e utilitarista de Deus se une à realidade, não é surpreendente ver
tanta gente saindo porta afora das igrejas.
Criado na igreja, o jovem Gabriel Santana Mariano, de São Paulo, fez esse
percurso. Ele conta que o convívio com pessoas “do mundo”, como dizem os
evangélicos, acabou colaborando para seu distanciamento da fé. “Os pratos que
nos oferecem são bem atrativos”, diz. Os cultos saíram de sua rotina e hoje ele
frequenta academias, festas e baladas. A mãe, diz Gabriel, continua orando por
ele. “Se não fosse por isso, não sei como poderia estar hoje”, reconhece.
Apesar de tudo, ele confessa que acredita e confia em Deus. “Sinto que sinto
que não faço parte desse mundo”, revela. “Algo dentro de mim sente um grande
vazio e, mesmo que eu tente me enganar, sei que isso é falta de uma comunhão
com Deus.”
Os crentes, geralmente, adotam uma dentre duas reações igualmente prejudiciais
em relação a alguém que abandonou a fé: tornam-se agressivos, com um discurso
de julgamento, ou preferem não se envolver na questão. No encontro anual da
Associação Americana de Sociologia, em 2008, um grupo de estudiosos da
Universidade de Connecticut e da Universidade de Oregon relataram que “o maior
papel dos cristãos no processo de abandono de fé foi amplificar dúvidas
previamente existentes”. Os ex-cristãos relataram “dividir suas dúvidas com
amigos ou familiares cristãos e receberem respostas triviais e superficiais”.
Além de não possuir recursos apropriados para trabalhar com esse grupo, as
igrejas, no geral, não sabem lidar bem com aqueles que estão em conflito com
sua própria fé.
A crise de pessoas abandonando a fé também passa por outros níveis.
Primeiramente, jovens adultos estão abandonando a religião em ritmo mais
acelerado e em maior número do que jovens adultos das gerações anteriores,
conforme estudos feitos nos EUA e ainda incipientes por aqui. Em segundo lugar,
o argumento sobre fases da vida, por si só, não se sustenta. O jovem adulto de
hoje não é o jovem adulto de antigamente; o de hoje permanece nesta fase por
mais tempo. Casamento, carreira e filhos – a força sociológica primária que
leva os adultos de volta ao compromisso religioso – são elementos hoje
postergados para os vinte e poucos ou trinta anos.
CAMINHO DE AMORPara Onésimo Pinto, pastor de jovens da Igreja Evangélica
Bíblica Betel, de Recife (PE), os pais têm uma parcela de culpa no afastamento
ou esfriamento da fé dos filhos: “Muitos educam os filhos de uma maneira, mas, na
prática, vivem de outra. Então, os filhos aprendem dos pais a tapear e maquiar
o cristianismo. O distanciamento acontece no momento em que eles têm acesso
caminhos antes inacessíveis”. Segundo ele, esse hiato entre fé e
comportamento acaba desestimulando os jovens, que não querem repetir o erro e
preferem abrir mão da vida cristã. “Essa é a experiência que identificamos em
muitas famílias”, atesta o conselheiro. No entanto, Onésimo também aponta a
culpa da Igreja: “Infelizmente, falta um ensino doutrinário que fundamente a fé
dos jovens. Muitas igrejas são mais clubes sociais, onde as pessoas vão para se
encontrar e agendar programas, enquanto o estudo da Palavra praticamente não
existe.”
Não há nada de errado com pizzas e videogames, nem com celebrações sensíveis ou
pequenos grupos de pouco comprometimento que apresentam pessoas à fé cristã.
Mas isto não pode substituir o discipulado sério e o ensino. Um lugar para
começar é repensando como a Igreja e os evangélicos têm ministrado aos jovens.
A tentação de se afastar da fé não é novidade. O apóstolo Paulo exortou a
igreja em Éfeso sobre a necessidade de amadurecimento de cada cristão: “o
propósito é que não sejamos mais como crianças, levados de um lado para o outro
pelas ondas, nem jogados para lá e para cá por todo vento de doutrina e pela
astúcia e esperteza de homens que induzem ao erro” (Efésios 4.14, segundo a
Nova Versão Internacional).
Apesar dessa lacuna, grande parte dos pesquisadores insiste que este dramático
número de abandonos espirituais durante os vinte e poucos anos não é uma
situação alarmante. Em seu recente livro “Cristãos são hipócritas cheios de
ódio...E outras mentiras que você já ouviu (inédito em português), o sociólogo
Bradley Wright argumenta que estes números sobre a tendência da juventude ao
abandono da fé é “mais um mito” do cristianismo contemporâneo. Ele lembra que
os integrantes de cada nova geração são sempre observados com suspeita pelos
mais velhos. Ao falar sobre a própria juventude, o autor se descreve como “um
moço de cabelos compridos e camisetas diferentes” e destaca que os adultos
daquela geração não tinham muita fé no futuro quando olhavam para adolescentes
como ele.
Wright acentua que jovens adultos costumam abandonar a religião organizada
quando deixam a casa dos pais, mas retornam quando formam sua própria família.
Rodney Stark também pede cautela. O sociólogo da Universidade Baylor diz que
dados de suas pesquisas reafirmam resultados de outros estudos, mas que isso
não é motivo para alarde. “Jovens sempre foram minoria ao frequentar igrejas,
em relação os mais velhos”, ele escreve. Stark é confiante ao dizer que os
jovens retornarão. “Um pouco mais à frente, quando tiverem se casado e,
principalmente, após a chegada dos filhos, eles se tornam mais frequentes na
igreja. Isso acontece em todas as gerações”.
Em última instância, retornar ao aprisco após uma ausência de dois ou três anos
é uma coisa – depois de uma década, contudo, é mais improvável. Além disso, há
que se levar em conta que uma mudança tem ocorrido na cultura de maneira ampla.
As gerações anteriores foram rebeldes por um momento, mas ainda assim habitavam
uma cultura predominantemente judaico-cristã. Os jovens afastados de hoje
encontram fora da igreja um caldo cultural que não favorece muito o retorno ao
sagrado. Por isso, a necessidade é do lento, porém frutífero, trabalho de
construir relacionamentos com aqueles que abandonaram a fé. Isto irá requerer
de cada parte envolvida – pais e filhos, Igreja, conselheiros, educadores
cristãos – o esforço de olhar além do ceticismo e enxergar a necessidade
espiritual de cada um. Uma vez que cada queixa, história e demanda for ouvida e
compreendida, certamente serão construídas pontes de confiança e o caminho de
volta para casa será iluminada com amor.